SENHOR, FAZEI-ME INSTRUMENTO DE VOSSA PAZ
São Francisco de Assis foi um homem de paz, sem deixar de contestar (sobretudo com sua vida) as situações de injustiças, de opressão e violência de seu tempo.
Certa vez, quando já estava gravemente enfermo, sabendo do sério conflito entre o bispo e o prefeito de Assis, enviou-lhes alguns frades para que cantassem o cântico do “Irmão Sol”, acrescentando a estrofe que fala do perdão. Com este gesto, a paz entre esses dois personagens voltou a reinar.
Em uma outra ocasião, São Francisco exerceu o papel de mediador entre a cidade de Gúbio e o lobo feroz que rondava por ali, estabelecendo uma aliança de paz entre eles. Que lobo era esse? Certamente as situações conflituosas daquela comunidade. Situações em que os mais fortes (lobos) devoravam os mais fracos.
O fato mais significativo do Santo de Assis como construtor da paz foi a sua visita ao Sultão do Egito. Sabe-se que, no ano de 1219, Francisco, vestido apenas do seu velho hábito e com o escudo da fé, partiu para Damieta, no Egito, a fim de conversar com o chefe dos muçulmanos e propor a paz entre eles e os cristãos. Conseguiu falar com o Sultão. O que teriam conversado? Não sabemos. Esse diálogo ficou gravado somente no coração de Deus. Algumas anotações posteriores nos dizem que o Sultão foi contagiado pela mansidão e humildade de Francisco
Passados oito séculos, a humanidade não esqueceu os tantos gestos de Francisco a favor da paz. Em que sentido ele nos inspira em nossa missão de testemunhos da paz?
Primeiramente é preciso observar que o “Pobre de Assis” optou por viver o Evangelho na simplicidade, humildade e pobreza. Ao ser radicalmente humilde, colocou-se no mesmo chão (húmus=humildade) e ao pé de cada criatura, considerando-a sua irmã. Sentiu-se irmão da água, do fogo, da cotovia, da nuvem, do sol e de cada pessoa que encontrava. Com isso inaugurou uma fraternidade sem fronteiras: para baixo com os mais pobres, para os lados com os demais semelhantes, para cima com o sol, a lua e as estrelas. Todos para ele são irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai de bondade.
A pobreza e a humildade assim praticadas levam ao respeito ilimitado para com cada pessoa e cada elemento da natureza. Ao renunciar qualquer posse de bens, Francisco fez-se irmão de todos os seres humanos e de toda criação. Foi ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coração puro, oferecendo-lhes apenas a cortesia, a amizade, o amor desinteressado cheio de confiança e ternura.
Mas a paz vivida e anunciada por Francisco não é um sentimento qualquer e nem é uma espécie de harmonia panteísta, com as energias do cosmos. A paz de São Francisco é aquela de Cristo e a encontra quem “toma sobre si o seu jugo”, isto é, o seu mandamento de “amar uns aos outros como Ele amou”. Este “jugo” não se pode levar com arrogância, com presunção, com soberba, mas com mansidão e humildade de coração.
Que São Francisco nos ajude a dizer com a vida: cessem os conflitos armados que ensanguentam a terra; silenciem-se as armas; que o ódio dê lugar ao amor, a ofensa ao perdão e a discórdia à união. Que todos ouçamos o grito daqueles que choram, sofrem e morrem por causa do ódio e da violência. Que o Senhor faça de nós instrumentos de Sua paz.
Frei Pedro Cesário Palma